16 de Janeiro – Sexta-feira

Eu poderia escrever a noite inteira, encher a capacidade interior do computador, que não conseguiria descrever o que aconteceu esta noite no Bar dos Camundongos, ou Toca dos Ratos, localizado na Rua Lavras 870B, esquina com Rua Cristina, entre as 18 horas e 23 horas.

         A sensação que sinto foi a mesma que tive quando terminei a leitura do Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa e pensei: pronto, não lerei mais nada, tudo que eu ler de agora em diante é supérfluo e menor do que acabei de ler, isto é a síntese do que é literatura, estou “bastado”. É isso que posso dizer em relação ao Bar dos Camundongos. Eu poderia parar por aqui com a minha caminhada este ano atrás de butecos, porque encontrei a síntese do que é um boteco.

         Se eu fosse um escritor viraria um livro, um best-seller, se eu fosse um cineasta viraria um filme (recorde de bilheteria), se eu fosse um sociólogo viraria uma tese de doutorado…

         Vocês acham que estou exagerando? Proponho a vocês irem lá. Mas advirto, não vão a este bar em grupos como se estivessem se protegendo. Sugiro que vocês vão a este bar, sozinhos, cheguem lá como eu cheguei, desarmados, sem explicações, prontos para viver a emoção completa que é desfrutar algumas horas naquele lugar com todos os riscos que ele possa ter.

         Na página de ontem, escrevi que era um lugar “incrível” e agora sinto que não existe uma palavra que possa definir o que significa aquele lugar. Eu me sinto como um jogador de futebol, ao final da conquista de um título que respondendo ao jornalista sobre o que está sentido, diz: Eu não tenho palavras para descrever o que estou sentindo.

         Cheguei lá às 18 horas em ponto, com receio de alguém ter lido este blog e ter ido pra lá à minha espera, mas não tinha ninguém. Tinha uma vaga bem em frente ao bar, na qual tentei estacionar, mas me olharam (umas duas pessoas que já estavam lá) com a cara ruim que resolvi estacionar mais em frente.

         Entrei no bar (não é assim que se diz), melhor, aproximei-me da porta do bar e o dono, o Evaldo, olhou-me com um sorriso e eu pedi: Um água, por favor. Ainda tinha esperanças de chegar alguém e pretendia beber pouco naquela noite. Ele ampliou o sorriso e me respondeu: Aqui nós só vendemos cerveja. E era uma verdade, ou melhor, uma meia verdade, pois vendem cachaça também. Mas o Evaldo queria dizer que não vendem nada menos forte que  cerveja. E para não perder a pose, respondi: Então eu quero uma cerveja.

         Dentro do bar tinha duas pessoas e uma delas me disse: Eu lhe conheço, Ricardo. Eu respondi que também o conhecia, mas o meu nome não era Ricardo. Era o Jarbas, o Bibinha como é chamado lá, pai de um colega do Daniel no Colégio Dom Silvério. Ele lembrou que nós deveríamos ter entrada grátis no Chevrolet Hall pois foram as mensalidades altas que pagamos tanto tempo, que permitiram que o Irmão Manoel construisse aquilo.

         Conversa vai, conversa vem, o assunto foi para o lado da cachaça e para o lado de Salinas e o outro cara, o Jean, me perguntou: Você conhece Mainha, de Salinas? A resposta: É meu primo. Ele estava falando de Eliseu Corrêa. Jean ligou para Eliseu na hora, confirmou a informação e a minha aceitação estava de vento em popa. Fui advertido que naquele bar se falava muitos palavrões e eu não deveria me assustar com eles.

         Minutos depois entra o Zé Roberto. Eu bato o olho nele e digo: eu lhe conheço da Católica. Tinha sido professor no curso de Engenharia. Pronto. A minha inscrição estava garantida. E olha que tinha apenas umas seis pessoas naquele momento e eu já tinha relações com a metade do bar. Das 18 horas até a hora que o bar fechou apenas doze pessoas estiveram lá: Evaldo (o dono), Jean (o amigo do Eliseu), Jarbas (meu conhecido do Dom Silvério), Zé Roberto (meu ex-professor), Boi (um mulato que é presidente do grupo), o Chicão (ex-jogador de futebol), José Alfredo (médico), Chiquinho (outro pai de colega do Daniel), Luizinho, Eliseu e eu.

         O bar não vende tira-gostos. Cada cliente deve trazer o que quizer comer e um fogão fica à disposição para fritar uma linguiça que pode ser comprada no Verdemar, a um quarteirão. O Jean me disse que as boas cachaças que tem lá são trazidas pelos clientes, o Zé Roberto chegou com uma garrafinha de Germana.

         O bar tem algumas regras, algumas proibições. Mulher não entra, não se pode falar de serviço e fui advertido para abrir o laptop de novo. A Aquele bar não adimite transgressões.

         No começo cada um pedia uma cerveja e ficava bebendo da sua própria garrafa. No final veio a informação: – não pára de beber porque a conta será dividida.

         Não tem placa e o nome do bar está escrito na parede externo sobre o nome dos clientes, de um lado fica escrito o nome dos chatos e do outro lado fica escrito o nome dos cri-cris. Tem um Augusto que não sou eu.

         Quando alguém se desentende com outro vem a ameaça: Vai pro bar do Marinho. Não fazem a menor questão de clientes, pois sabem que quando menor gente frequentar, melhor será o bar. José Alfredo que não tem estrutura para suportar aumento e que já teve até reclamação de vizinhos, na Prefeitura, contra a ocupação do passeio.

         É do José Alfredo a frase: – É o bar de Belo Horizonte que tem o maior PIB. – O Chiquinho enche o peito para falar que qualquer profissão que se pensar tem um freguês de lá que tem esta profissão e me desafiou a dizer uma. Arrisquei: Psiquiatra. E tinha. Nova tentativa: – Fisioterapeuta. – Chiquinho pensou, buscou na memória e concluiu, levantando: – O Dr. José Alfredo é isto tudo.

         Quando o Eliseu falou ao telefone, explicando que estava no “cu sujo” do Jean, veio a reclamação: Cu sujo não, aqui é uma petisqueira!

         O Chicão é um ex-jogador do América que chegou a jogar na Portuguesa, em São Paulo. Alguns, em tom sério, contam que o Pelé teria dito que ele foi um dos seus melhores marcadores. Ele conta que Pelé o chamou num canto e disse: Negão, joga sua bola que eu jogo a minha. Os mais sacanas contam que o Pelé passou a bola onze vezes embaixo das pernas dele em um único jogo.

         Caso que demonstra o desintesse deles em aumentar a freguesia: pára um carro e pergunta quanto custa uma cerveja. Para não vender dizem que custa R$7,00; pensam e voltam dizendo que querem comprar duas cervejas e o pessoal respondeu que acabou, que todas já foram vendidas.

         Quando contei o caso deste blog os clientes pediram para eu não divulgar nada porque senão iria aumentar o número de pessoas ou então divulgar dizendo que o lugar não vale nada, desaconselhando ir lá. Mas o Evaldo disse que não tinha problema não, que podia divulgar.

         Fui ao Verdemar comprar um tira-gosto e, na fila, fiquei conhecendo o José Alberto que me disse que estava indo pra lá e que eu o esperasse para irmos juntos. Ele conhece o Caldeira. Pouco antes de virar a esquina para chegar no bar o José Alfredo propôs que fizéssemos uma brincadeira com o grupo. Ele esperou antes da esquina e eu cheguei no bar puto da vida, dizendo que um tal de José Alfredo tinha enchido o meu saco e eu quase dava uma porrada nele. Quem mais arregalou os olhos foi o Chiquinho, que já os tem grandes por causa dos óculos, o Jarbas me pediu calma e o grupo ficou meio assustado. E eu ameaçava: se ele vier aqui, vou dar porrada nele é aqui mesmo!

         Quando o José Alfredo chegou e eu fui falar com ele, ele disse muito bravo: Não conversa comigo não, que eu não te conheço. E os caras assustados. Expliquei para o Zé Roberto e ele, percebendo a confusão que poderia dar, explicou logo para todos. Foi um sarro e falamos disto o tempo todo. Todos impressionados com a veracidade que eu e ele demos à cena. Tudo issso regado a muito palavrão:  -Seu filho da puta, eu pensei que você estava falando sério.

         No meio da conversaiada, chamei, de dentro do bar, o Luizinho que estava na porta e disse, quando ele olhou pra mim: – Ô Luizinho, vai tomar no seu cu.  – Ele não titubeou e respondeu: – Ah! Augusto, vai pra puta que o pariu. Esse é o espírito da coisa: muito palavrão, mesmo sem motivo, muita irreverência, muita desconexão (é mais difícil contar um caso lá que quando Marina e Danilo estão conversando) e muita igualdade social (ninguém vale mais que ninguém).

         Ficamos até que a cerveja acabasse, o Evaldo baixou a porta e os que estavam mais tontos e moravam mais longe. Eu fui, na companhia de Luizinho e Boi, até perto da casa deles, mas recusei o convite para ir a outro bar.

Bar dos Camundongos

Bar dos Camundongos

 

 

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3 Respostas para “16 de Janeiro – Sexta-feira

  1. Augusto, vou marcar com Danilo de te encontara la no
    bar das ratazanas e te encher de caso, sem deixar vc falar NADA.

  2. Augusto, este blog vai bombar!!!Metade de BH vai querer copiar sua idéia, então te sugiro rapidamente patenteá-la, antes que façam isso. Daqui a pouco a Belotur vai dizer que pra fazer circuito de bar na cidade você tem que pagar imposto e acabou sossego…os textos estão ótimos, isso dá livro, hein?
    E pra terminar, esse Caldeira que o tal José Alfredo conhece, por acaso é o sogro de Gêra?
    No mais, quando achar um buteco que aceita mulher e mulher de irmão, vulgo cunhada, me chama, certo?
    Fui…e você que fique aí, até acabar umas e outras! Juliana.

  3. Jean Pierre

    Meu amigo,

    Nota 10 a descrição do nosso local. Porém só há um deslize. Nós não frequentamos um BAR nem PETISQUEIRA mas sim um ESTABELECIMENTO.
    Aguardamos sua visita. Hoje é um bom dia para encontrar os camundongos.
    Forte abraço.

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