Arquivo do dia: 17/03/2009

16 de Março – Segunda-feira

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                      A forte chuva que caiu hoje, por volta das 22 horas, em Belo Horizonte, me prendeu por mais de meia hora na porta do Café com Letras, na Rua Gonçalves Dias, 1581 quase esquina com Bahia. Meu carro estava estacionado muito longe e tive tempo para pensar, enquanto a chuva não passava.

Tempo para pensar na época em que eu era estudante universitário no Instituto Politécnico da Universidade Católica e frequentava o Diretório Central dos Estudantes (DCE) que funcionava na Avenida Getúlio Vargas, quase com Contorno. Ia lá sábado à noite, na hora-dançante, e ficava naquela penumbra, sozinho, desenturmado, duro, rodando a chave da porta da pensão de Alaíde, enquanto andava entre as mesas, à procura de uma moça para dançar, achando que elas pudessem acreditar que aquela chave fosse a chave do meu carro.

O DCE da Católica era mais quadradão, mais tradicional que o DCE da Federal; o negócio lá era sério (tinha até mãe na companhia das filhas), as moças iam prá lá à procura de um namorado, estudante de engenharia ou de direito, e nós à procura de uma namorada.

O DCE da Federal, onde fui umas poucas vezes, era mais doidão, mais bagunçado. É a mesma diferença que existe  até hoje entre ambientes e cabeças da Católica e Federal.

O tempo passou, este negócio de hora-dançante saiu de moda e a ditadura fez o favor de afastar os alunos do convívio  dentro dos muros da escola. Não sei o que funciona hoje onde era o DCE da Católica, mas o DCE da Federal virou o Belas Artes Liberdade.

E é lá o lugar onde se pode assistir um bom filme hoje. Lá é quase uma garantia que não se assistirá uma porcaria. É lá que pratico uma coisa que aprendi logo que mudei para BH: assistir filmes de artes. Ia ao Pathê assistir filmes de arte e aprendi a assistir filmes sem entender nada e até hoje não consigo entender os filmes, mesmo os fáceis. Gosto desta coisa de ver, entender um pouco sem formar uma idéia definitiva da mensagem, deixar a idéia solta, incompleta dentro da cabeça.

Mas fundaram o Belas Artes, onde era o DCE da Federal, e puseram um bar lá dentro. Você tem a opção de tomar um café antes do filme ou um drinque após o filme. Eu optei por uma Bohemia e um sanduiche “sugestão do chefe” (sanduiche no pão ciabata com queijo provolone, peito de peru, maionese com parmesão, tomate fresco, alface e salaminho) na saída do filme “Entre os muros da escola” do francês Laurent Cantet.

O cardápio é variado: massas, risotos, sanduiches, crepes, sobremesas, quatorze tipos de café, espumantes, vinhos, uísques, conhaques, tequilas, tudo.

O garçom meio veado que me atendeu, não soube dizer há quanto tempo o cinema funciona neste local, mas disse que ouviu dizer que, durante a ditadura, os estudantes ficaram presos lá, por vários dias, por conta de um filme proibido que estavam assistindo.

Para completar o espaço abriram uma livraria que vende, também, discos. Na parede do lado direito de quem entra tem sempre uns quadros em exposição e nos finais de semana, rola um show musical. Ajuntaram tudo que eu gosto num lugar só. O lugar é quase perfeito.

Só faltou um bordel ao lado e acesso ao Portão 14 do Mineirão.