Arquivo do dia: 29/05/2009

28 de Maio – Boteco da Carne

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     Papai, usando as armas que ele sabia muito bem manipular, sarcasmo e ironia, gostava de repetir a história do cidadão que tem uma filha, cria com o maior cuidado, leva no pediatra com regularidade, faz primeira comunhão, coroa Nossa Senhora vestida de anjo, paga os melhores colégios, faz festa de 15 anos e depois ela se casa com… e aí ele colocava o nome de um cara de Salinas que ele não admirava e que não vou repetir aqui. Ele contava este caso para mostrar o que é uma pessoa fazer tudo certinho para fim, por um detalhe, colocar tudo a perder. Foi esta história que me ocorreu, quando fui hoje ao Boteco da Carne.

     Primeiro o dono arranja uma casa no Bairro São Pedro, na Rua São Romão, 56 (2555-8480), construída num terreno bem inclinado, investe uma boa grana e consegue uma bela solução arquitetônica, criando diversos níveis com sacadas internas.

     Depois paga, suponho, outra nota preta para participar do Comida de forma a garantir que mesmo numa quinta-feira, como a de hoje, o bar fique cheio. Quando saí ainda estava chegando mais gente.

     Aí cria um prato com rara inteligência: linguicinha, pernil e almôndega, molhados no angu molinho coberto com queijo parmesão, colocando tiras de couve no fundo do angu e três pimentas biquinho sobre o angu para enfeitar e condimentar.

     E batiza o prato com o sugestivo nome de “Fondi Mineiro” que me deixou curioso desde a primeira vez que li sobre os pratos desta edição do Comida.

     Para completar o requinte, confecciona o suporte no qual o prato é servido: uma tábua com apoio para os quatro recipientes de pedra nos quais são colocados, separados, a linguicinha, o pernil, a almôndega e o angu. Forja a marca da casa no suporte e corta rebaixos para encaixe dos recipientes e dos garfinhos de madeira, com os quais se come o prato, como se fosse um founde mesmo.

     E o cozinheiro põe tudo a perder. Tira a almôndega do congelador e frita sem descongelar; frita muito para não ficar crua no meio e ela fica dura e engordurada. Mete os pés pelas mãos e deixa a linguicinha crua, com gosto de lingüiça de segunda categoria. E foi o dono quem me contou isto, quando respondi à pergunta dele sobre a qualidade do prato.

     O dono, demonstrando amadorismo, fugiu da minha mesa, quando teria sido muito mais profissional e elegante se propusesse a troca do prato.

     Mas aí, nós não estaríamos num buteco.