18/12/2010 – Cerveja é História

CERVEJA É HISTÓRIA, CIVILIZAÇÃO E MACUMBA

blog do Luiz Antonio Simas  – Historias Brasileiras.

A cerveja é a prova evidente de que Deus nos ama e nos quer ver felizes (Benjamin Franklin)

Quem sabia das coisas mesmo era Hammurabi, o rei da Babilônia, que viveu em mil setecentos e cacetadas antes de Cristo e Oscar Niemeyer. Ao elaborar um rigoroso código de leis, o Mumu da Babilônia criou uma cacetada de regras sobre um tema de grande relevância para o homem universal – o consumo da cerveja.

Saibam os senhores que o Código de Hammurabi estabelecia, como dever público, a obrigatoriedade do fornecimento diário de cerveja ao povo. Um trabalhador braçal receberia do Estado a cota básica de 2 litros por dia; um funcionário público, 3 litros; os sacerdotes e administradores, 5 litros para o consumo mínimo diário. O Estado se comprometia com o fornecimento dessas modestas cotas. O resto era por conta da sede do cidadão.

Hammurabi também elaborou regras para punir os produtores de cerveja de baixa qualidade. A pena aos responsáveis pela produção da má cerveja era simples e de grande sensibilidade diante do momentoso tema: morte por afogamento.

Já no Egito quem entendia do babado era o faraó Ramsés III, mais conhecido como o cervejeiro. O homem era um copo da maior categoria. Basta dizer que em certa ocasião, ao resolver dar um presentinho aos sacerdotes do Templo de Amón, doou aos cabras 466 mil e tantas ânforas de cerveja provenientes de sua cervejaria particular, pedindo escusas pela modéstia da quantidade ofertada. Isso dá aproximadamente 1.000.000 [um mihão] de litros da bebida. É mole?

Os gregos e romanos, meio afrescalhados e chegados numa viadagem entre filósofos, artistas e rapazolas, preferiam o vinho. A velha cerva, entretanto, continuou sendo a bebida predileta de povos dominados pelos romanos, como os gauleses e germânicos. A elite de Roma achava que cerveja era bebida de bárbaros incultos. Tácito, uma bicha louca, ao descrever os germanos mencionou a cerveja como a bebida horrorosa fermentada de cevada ou trigo.

Entre o povo da curimba, o meu povo, a cerveja é fundamental. Ogum, meu pai, é chegado numa cerveja. Quem quiser agradar ao guerreiro pode colocar uma cervejinha na mata, no caminho ou numa estrada de ferro. Xangô gosta mais de uma cerveja preta – que pode ser colocada numa pedreira ou ao lado de um dendezeiro. Exu gosta de qualquer coisa que tenha álcool – basta colocar a água que o passarinho não bebe na esquina, saudar o compadre e o dia tá garantido.

Sempre me recordo, durante epifanias etílicas, da frase proferida em certa ocasião pelo escritor e meu camarada Alberto Mussa. Em pleno Al-Farábi, o templo cervejeiro da Rua do Rosário, Mussa garantiu que a criação da cerveja é um feito civilizacional no mínimo similar à criação do livro. Maurício, o taberneiro maldito que nos entope de geladas das mais variadas no Alfa, chorou ao ouvir a sentença.

Cada vez entendo mais  por que é que o Kalevala – a magnífica epopéia nacional da Finlândia, que conta as façanhas do bardo Vainamoinem e do ferreiroIlmarinen, heróis do povo – tem mais recitativos sobre a origem da cerveja do que sobre a origem do homem. É que sabiam das coisas, aqueles cabras valentes do fim da terra.

É com reverência, enfim, que dedico esse arrazoado aos meus amigos de copo. O homem justo bebe cerveja como quem reza, reza com o fervor amoroso de quem toma umas geladas com os do peito no boteco da esquina e sabe que ninguém faz amizades tomando leite em balcão de padaria.

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