02/07/11 – Bar do Toninho

 

Como um cão farejador, segui a pista do Marcelo e corri para o Bar do Toninho, nesse fim da manhã de sábado – já sabendo que ele abriria a partir das 11 horas -, atrás de mais uma figurinha que estava faltando no meu álbum. Chego a Rua Níquel, 246, Serra, 9157-9799, por volta do meio-dia e dou de cara com um bar sem placa, sem quaquer identificação, no que foi antigamente uma mercearia, embaixo da casa de esquina, da família síria Auad.

O narizão de um dos dois homens sentados em uma mesa e movimento dele, levantando-se da mesa para me atender, indicava: esse é o Toninho. A cara fechada do dono – talvez para espantar indesejados – os cartazes indicando não aceitar cartões de crédito e débito e que era proibido fumar lá dentro era um disfarce do bem humorado Toninho, que estava muito alegre em uma antiga foto entre amigos, indicando que desde1983, amercearia da família tinha cedido lugar ao bar.

Logo chegam seus fregueses, com idade superior a minha, e ocupam a principal mesa do bar, que tinha uma plaquinha de reservada is on the table, quando cheguei. Um traz a notícia que Itamar Franco tinha acabado de morrer, outro comenta que era teimoso, rebelde com o cabelo dele, chato, coluna do meio, mas que era honesto. Um terceiro chega com um marmitex com linguiça e torresmo que distribui entre nós todos do bar. Outro para provar que esteve doente, argumenta: – Eu vim aqui na quarta? Eu vim aqui na quinta? – Um penúltimo comenta com um que chega: – Você não adentrou ao gramado ontem. O que houve? -. Um último chega e diz pro Toninho não se preocupar e continuar sentando, pega a sua cerveja e a sua esfiha e vai para a mesa.

Um desses pede para um freguês que acabara de entrar para esperar um pouco pois ele estava preparando um prato lá dentro. Toninho estava sozinho até que chegou o filho dele para ajudar. Esse filho, que tinha acesso à casa, entrava pela porta lateral com um prato de esfihas, indicando que a cozinha tinha apoio do andar do cima. Torceram para a Bolívia contra a Argentina na Copa América, certamente esquecidos que o presidente boliviano é o Evo Morales.

Começa a seção piadas e continuam me dando informações sobre o ambiente e matéria para essa página. Toninho conta a do cara que estava tendo deslocamento de órgãos, pois seu rim estava indo pro saco. O primeiro conta que no carro de amigo dele as damas iam na frente. E, damos atrás. Aquele informa que, por medida de economia, o Toninho servia a pimenta sem o furo e este esclarece que já fez empadinha de camarão sem camarão por que tinha gente que não gostava de camarão.

E eu lá, distante, todo ouvidos, aparentando distração enquanto saboreava uma deliciosa esfiha de carne (R$2,50) – não tinha mais a de ricota – e um quibe de mesmo preço e qualidade que o próprio Toninho fritara na hora, junto com uma Serramalte a R$5,00, preterindo as Skol e Brahma a R$4,00.

O cardápio, afixado na parede, que já foi raiteque no começo do século passado – daquele tipo, de plástico, que enfia as letras nos buraquinhos -, indicava um lagarto com damasco (R$12,00) que tinha acabado e charuto a R$2,50 que só tem nas terças-feiras. Ficamos então com uma porção meio a meio de quibe cru e grão de bico (R$12,00) com pão (R$0,65), decoradas com pedaços de cebola e rodeada de azeite. E me dei por almoçado.

O Toninho, todo elegante, demonstrando profissionalismo e simpatia, dando a última pista para transformar essa análise butequeira em crônica, aproxima da nossa mesa e pergunta para a Cristina, que comia a porção:

– Tá bom, aí?

 

 

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17 Respostas para “02/07/11 – Bar do Toninho

  1. Eugenio Raggi

    Grande Bar do Toninho!

    Eu gosto muito da simpicidade do cardápio, a excelente combinação humus/kibe cru/nacos de cebola/azeite, o quibe de primeira, a ótima esfirra, cerveja gelada e preços muito bons. Além de tudo é um bar sem frescuras, com gente simples e educada. O Toninho só não gosta de mesas de grupos, daquelas de “colegas de serviço”, onde só se fala de trabalho e as afinidades são poucas. Pra essa “clientela” ele tem um tratamento especial: cerveja frapê e menos pressa pra servir o tira-gosto. Bar do Toninho tá no meu “top 20”, que depois, se o Augusto achar pertinente, eu publico por aqui.

  2. Eugenio Raggi

    Augusto,

    Anota aí mais uma sugestão: Bola Bar na R. Pe. Eustáquio 2512. O bar tem mais de 50 anos e é do estilo “butecão”, com pelo menos 15 opções de tira-gosto de estufa (bolas de carne, couve-flor a milanesa, batatas na manteiga, mandioca, carne de panela, lingua, dobradinha, pasteis variados, bolinho de feijao, etc.). É um mito, além de estar no meio da muvuca, encrustado no ponto mais movimentado da Pe. Eustáquio. Vale a pena daruma passada por lá.

    Abs!

  3. Augusto e Eugênio,

    Vejo que vou ter que me adiantar para finalmente conhecer o Bar do Toninho.

    Também aprecio os cardápios simples e originais, porém me desiludo um pouco quando falta este ou aquele item. Não que eu seja incompreensivo, afinal o fortuito é traço que faz do bar um verdadeiro boteco. Mas o meu paladar, irracional e sempre ávido por novas experiências, volta meio contrariado pra casa.

    Diante dessas situações sempre me vem a mente uma ponderação soltada pelo meu irmão certa vez: é impossível se avaliar um bar com justiça antes da terceira visita. Eu até concordo, mas vivendo na cidade dos tais 12 mil botecos, como não mandar a objetividade pro espaço?

    No Bola Bar sim, já estive algumas vezes, mas há seis ou sete anos não vou. Me lembro do Bolinho de Feijão, e também de um pernil com batatas coradas. Botecão tradicional, e de primeira.

    Abraços!

  4. Já me esquecia de dizer o quanto fiquei curioso pelo Top 20 do Eugênio.

    Confesso que teria dificuldade em elaborar o meu Top 20, apesar de ter o meu boteco número 1. Por certo ainda tenho muito a desvendar e percorrer.

  5. augustonobuteco

    Eugenio,
    ja tem mais gente curiosa. Manda o seu Top 20 que vou divulgar como uma postagem e vou incentivar outras pessoas a fazerem o seu Top 20. Já vou preparar o meu.
    Aguardo.
    Um abraco,
    Augusto

  6. augustonobuteco

    Eugenio,
    ja ta anotado. Obrigado.
    Um abraco,
    Augusto

  7. Vai ter que voltar com a gente, pra não deixar água na boca dos Borges daqui!…

  8. Daniel Iglesias

    – Tá bom demais.

  9. Nossa, gostei muito, terei que comparecer!!!
    E do texto, adorei o raiteque!!! Hahaha…
    bjo, Augusto.

  10. Eugenio Raggi

    Augusto, penseii num TOP 20, mas ele ficou injusto, mais injusto do que o TOP 10, que divulgo aqui. Um abraço!!

    10 – BAR MERCADO CENTRAL : É disparado o melhor bar do Mercado, donde vemos a cozinha em seu ritmo frenético, trocamos ideias com copeiros e cozinheiras e acompanhamos o festival de arremessos de ampolas. Tira-gosto caro e simples (almondega, torresmo, língua, pé-de-porco), mas espetacular.
    9 – SILVIO’S BAR : Mesmo depois da era Silvio, continua sendo um bar diferente, com movimento específico de buteco, gente simples, comida sem frescura e bons preços. Amo o chouriço, as batatinhas pirulito e o” figuinho” de frango. Muito especial.
    8 – BAR DO AGOSTINHO: Apesar de sua boa cozinha (com ótimos bolinhos de carne, pasteis e massas) foi indicado por tudo que representa de cultura. Só quem já passou uma manhã de domingo no Bar do Agostinho ouvindo o som da Velha Guarda do Calaprado sabe do que eu estou falando.
    7 – BAR DO XUMBA: Bar de gente boa, na pontinha do coração de um bairro que não podia faltar, o Santa Tereza. Xumba é um mito, mas quem faz a comida é o baixinho, com um pé-de-porco que cura as ressacas das manhãs de domingo e deliciosos pasteizinhos. Rolava um samba (by freguesia) maravilhoso nas noites de sexta e tarde de sábado, censurado por intolerante vizinhança, mas fica o registro.
    6 – CHIC TÁCIO : A melhor batata-frita de BH é um título injusto. É dos poucos bares que ainda serve bata frita feita de batata e não desses isopores congelados. Lota todos os dias ás 5 da tarde e merece estudo sociológico.
    5 – BAR DO BAIANO: É a melhor carne de sol do Brasil? Pouco importa. Baiano, que é sergipano, e muito boa-praça, ao contrário dos mitos, só serve quitutes que são verdadeiras obras-primas. Um gênio da baixa gastronomia.
    4 – BAR DO MARQUINHO: Uma pérola da butecagem. Poucos donos de buteco entendem tão bem a arte da butecagem quanto o Marquinho. Tira-gostos maravilhosos, sempre custando menos de 5 reais e uma simplicidade ímpar fazem a sua justificada fama.
    3 – BAR FLORESTA: Eu vi a trajetória deste bar. E gosto de seu dono como um irmão. Convivi com todas as suas vitórias. Muita gente diz que é o melhor botequim de BH. Talvez seja mesmo, pelos frequentadores, pela comida extraordinária, pelo dono, por ser uma história de sucesso que veio do nada. Enfim, um bar com história, vida e alma.
    2 – BAR DU JOAO : Eu sou cruzeirense. O João é atleticano, conselheiro delas. Tá. Não vou me indispor com os inimigos da bola. Mas eu e o João tínhamos tudo para sermos apenas comerciante e freguês. Mas o coração do João – que é chato, aborrecido, mal-educado – é um baú de qualidades. E sua comida é sensacional. Bons preços, clima de copo-sujo, no coração da Concórdia. Eu preciso de mais o que?
    1 – MERCEARIA DO BETOLINO ; Meu Top 1 é uma referência afetiva. Uma mercearia, até meio decadente em termos de secos e molhados pela concorrência com o supermercado vizinho. Mas eu amo essa esquina. Não espere encontrar aqui um tira-gosto ( anão ser um pedaço de queijo, mortadela, ou uma lata de salsicha), a não ser nas mitológicas manhãs de domingo, quando o Beto traz um torresmão 0800. Está longe, muito longe, de ser um bar maravilhoso. Mas é o lugar que mais aprecio para uma boa prosa, uma cana avermelhada de Pitangui e uma cerveja em toda BH. Um ambiente simplesmente extraordinário.

  11. Eugenio Raggi

    Augusto: Faltou o mapa da mina, os endereços respectivos:

    10 – Mercado Central – Rua Goitacazes, 647,Centro
    9 – SILVIO’S BAR : Rua Begônia, 199. Esplanada
    8 – BAR DO AGOSTINHO: R Calcedônia 109 – Prado
    7 – BAR DO XUMBA: R Salinas 1495 – Santa Teresa
    6 – CHIC TÁCIO : R Itamaracá 25 – Concórdia
    5 – BAR DO BAIANO: Rua Iara, 912 – Pompéia
    4 – BAR DO MARQUINHO: Rua Ten. Garro esq. c/ Ten. Anastácio – Sta. Efigenia
    3 – BAR FLORESTA: Rua Machado esq. Rua Guanhães – Floresta
    2 – BAR DU JOAO : Rua Purus, 49 – Concórdia
    1 – MERCEARIA DO BETOLINO : Rua sabará esquina com R. Itamogi – Col. Batista

  12. Legal este Top 10. Na maioria eu ainda não estive, apesar de conhecer alguns do boca a boca.

    Augusto,

    Até a publicação da postagem que menciona acima já terei o meu Ranking pessoal. Por hora gostaria de me desviar novamente para lhes falar do meu boteco número 1. Por já ter sido blogado pelo Augusto e por constar na lista acima, acaba chovendo no molhado, mas eu não resisto: É o Silvio’s Bar!

    Vaca atolada na segunda, Canjiquinha com costelinha na terça, Rabada com batatas e agrião na quarta, Polenta na quinta, Dobradinha com feijão branco na sexta, e feijoada no sábado. Peixe com purê, espaguete a bolonhesa e o ESPETACULAR feijão tropeiro são diários. Na estufa, “quando disponível” (mas sempre tem): costelinha frita, chouriço, batatinha bolinha e o figuinho (é obrigatório sempre começar por ele!). E como se não bastasse isso tudo, duas das mais originais porções criadas para o Comida di buteco até hoje: o jiló a milanesa (copiado aos baldes por outros bares em 2010, ano do jiló) e as fritas três em um (copiada hoje por barzinhos da moda na Zona Sul), além de várias outras que merecem destaque, como a farofa de jiló e a bisteca com angu e taioba. Ainda caldos bons, joelho de porco ensopado com mandioca, moelas, almôndegas, bolinhos de bacalhau, carne de sol com mandioca… acreditem, já experimentei todas, e mais umas dez que não mencionei.

    A Maria (viúva do Silvio) permanece conduzindo o bar de forma magistral, e nas poucas ocasiões que não consegui a companhia de um amigo para bebericar, foi naquele balcão em U que o fiz, ao lado dos garçons sempre camaradas.

    Na maior parte da minha vida morei em Santa Tereza, e há um ano troquei a Zona Leste pela Oeste. Gosto muito dos bares de cá, no Prado, no Gutierrez, no Barreiro quando estou mais animado… Mas o Silvio’s ainda reina absoluto no meu coração.

  13. augustonobuteco

    Eugênio,
    tá blogado. Agora preciso do endereço ou telefone da Mercearia Bertolino, Bar do Xumba e Bar do Agostinho.
    Faça-me o favor. Preciso conhecer.
    Um abraço,
    Augusto

  14. augustonobuteco

    Eugênio,
    você babaou e eu babei em cima. Agora vi os endereços e inclui no post.
    Um abraço,
    Augusto

  15. augustonobuteco

    Pedrão,
    quero ver o seu Top 10.
    Um abraço,
    Augusto

  16. Adriana Murta

    Sensacionais….o post e os comentários.

  17. augustonobuteco

    Adriana,
    fui reler o texto e dei novas novas gargalhadas com as piadas que ouvi outrora e com o profissionalismo simples e autêntico do Toninho.
    Até amanhã,
    Augusto

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